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    Importância artística


    Romance de Silvino Santos é encontrado no acervo do Museu Amazônico

    Manuscrito, que ainda não foi lançado, está sob tutela do Museu Amazônico e será publicado no boletim do museu

    | Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

    Manaus - O manuscrito intitulado "Romance da Minha Vida", de Silvino Santos, foi descoberto no acervo do cinegrafista no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e está prestes a ser lançado como livro. A descoberta aconteceu a partir de uma parceria entre o museu e o laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio, da Ufam. A publicação da obra, que ainda está sendo transcrita, deverá ser feita, a princípio, no boletim do Museu Amazônico.

    De acordo com Dysson Teles Alves, diretor do museu, o acervo conta com diversos outros materiais do autor, assim como negativos de vidro e imagens. 

    "A descoberta do manuscrito ocorreu durante o processo de organização arquivística do acervo Silvino Santos, o qual faz parte de um acervo maior que é o J.G. Araújo, que vem sendo organizado há mais de 10 anos. O acervo de Silvino é composto por negativos de vidro, seu material de trabalho, correspondências e muitas imagens, eu diria que o manuscrito é um documento muito importante para ser publicidade", afirma o diretor.

    Dysson conta ainda que a obra está sendo transcrita por ele, mantendo a tradição literária e gramatical de época com o objetivo de não interferir no pensamento do autor. Além disso, as parcerias são bem-vindas, pelo fato de contribuir com a mão de obra e, ao mesmo tempo, incentivar a área da pesquisa histórica. Com isso, permitir que estudantes, pesquisadores e interessados na arte cinematográfica, tenham acesso a essa documentação. 

    O manuscrito está sendo transcrito e será publicado pelo Museu Amazônico
    O manuscrito está sendo transcrito e será publicado pelo Museu Amazônico | Foto: Arquivo Pessoal

    Laboratório de Pesquisa 

    O Laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio, ligado à Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), tem como objetivo agrupar ações de pesquisa, ensino e extensão que envolve as reflexões e práticas acerca da história das Instituições e acervos documentais históricos, envolvendo  a ideia de organização, preservação e difusão, principalmente desse patrimônio documental amazônico.

    O professor Leandro Coelho de Alencar, coordenador do Laboratório, afirma a importância da descoberta para dar visibilidade à região amazônica, principalmente por ser um patrimônio material inédito e único. É uma obra rica em detalhes sobre a vida do Silvino, com um contexto histórico, social e econômico das épocas e sociedades em que ele viveu, influenciou e foi influenciado, desde sua infância em Portugal, até sua morte em Manaus.

    "É uma possibilidade de observarmos o homem, o tempo em que vivia, e a sociedade que o cercava. Por tais características é  que essa obra se torna tão  importante, não apenas para pensar o homem, mas também a região amazônica, se tornando um patrimônio documental único e importante, que deve ser preservado e difundido. A parceira do Laboratório de Pesquisa com o Museu Amazônico e a Ufam é muito  importante. Tratam-se de múltiplas possibilidades", explica o professor.

    A obra manuscrita é de conhecimento do Museu, principalmente pelos seus antigos funcionários, assim como por parte de pesquisadores e especialistas na obra do Silvino. Por outro lado, pela falta de referências dele nos catálogos do museu, a obra corria o risco de continuar escondida nas gavetas do lugar. Posteriormente, será feito um catálogo, publicado em formato físico e digital.

    A obra é rica em detalhes  sobre a vida do Silvino, assim como das épocas e sociedades a qual Silvino viveu
    A obra é rica em detalhes sobre a vida do Silvino, assim como das épocas e sociedades a qual Silvino viveu | Foto: Arquivo Pessoal

    "O que sempre aconteceu foi que os pesquisadores tinham que ter a sorte de encontrar os servidores no Museu para terem a sorte de saberem sobre a obra, que não consta nos catálogos do Museu. Esse problema de pessoalidade acerca do conhecimento do acervo é recorrente nas instituições de guarda documental, que deve ser evitada, principalmente com a criação e publicação de instrumentos de pesquisa, como os catálogos e guias de fundos", relata Leandro.

    Graduanda do curso de Arquivologia e bolsista do projeto, Adriana Christiny, conta que foi uma experiência única poder participar de todo o processo de descoberta e análise do manuscrito. Para ela, a obra é de extrema relevância para a literatura amazonense e para os que estudam sobre a história de Silvino, e sua atuação artística.

    "A descoberta do manuscrito ao mesmo tempo que foi uma felicidade para todos, foi um grande impacto também, visto a relevância que o mesmo tem. Um manuscrito original de Silvino, em boas condições e com pensamentos e visões tão pessoais e que, logo depois, descobrimos que nunca havia sido publicado, uma peça rara. Confesso que o impacto que tive foi grande. É gratificante por ter feito parte disso. A obra é uma raridade que só irá contribuir para muitas pesquisas e creio que para estudos sobre quem foi Silvino Santos e seu nome", afirma a pesquisadora.

    Silvino foi um cinegrafista e fotógrafo português radicado em Manaus
    Silvino foi um cinegrafista e fotógrafo português radicado em Manaus | Foto: Reprodução

    O Laboratório está também com trabalhos em andamento acerca de outras personalidades e momentos, como o tratamento do acervo documental do Thiago de Mello, também sob guarda  do Museu Amazônico e o levantamento das mensagens dos governador do Amazonas entre 1889, início da República, até 1930, fim do que conhecemos como Primeira República e início do governo e Período Vargas.

    Quem foi Silvino

    Cinegrafista e fotógrafo português radicado em Manaus, Silvino Simões Santos Silva,  foi o responsável por diversos registros importantes da Amazônia, como o longa No Paiz das Amazonas (1921). Apesar de ser cada vez mais famoso no meio cinematográfico, Silvino não recebeu o devido reconhecimento nacional por suas obras. Seus filmes chegaram a circular até na Europa, exibido no Cinema Pathé do Boulevard des Italiens, em Paris.

    Silvino contribuiu diretamente para a fundação da primeira produtora cinematográfica do Amazonas, a Amazônia Cine Filme, que apesar de falir pouco tempo depois, lhe rendeu visibilidade e concedeu uma de suas maiores parcerias: o comendador J. G. Araújo, renomado empresário da região na época. O artista faleceu em 1970, aos 84 anos, ainda em Manaus.

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